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Etapa 5 – de Portimão a Faro guiados pelo fio de Ariadna
Etapa 4 – de Odemira a Portimão de bicicleta, geografias que se aproximam
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Bicicleta eléctrica: a alternativa para deixar o automóvel
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Etapa 4 – de Odemira a Portimão de bicicleta, geografias que se aproximam

Histórias de viagem

Partimos de manhã, pela fresca, de Odemira. Cada nova etapa vai gerando em cada um de nós a sua própria história. Quando temos no grupo diferentes bicicletas - umas pedelec e outras não - o corpo é central nos comentários que se tecem sobre o esforço de cada um. Experimenta-se na pior das subidas reduzir a ajuda eléctrica para ver trocas de energia entre a bateria e as nossas próprias pernas. Em linha reta qualquer bicicleta de estrada ganha à pedelec porque esta para se manter bicicleta desliga a ajuda aos 25 km/h. 

Curtimos a viagem, o vagar, e com a economia do esforço conseguimos vencer maiores distâncias, 88 km entre Odemira e Portimão. Deixámos o Alentejo para entrar no Algarve, atravessamos de bicicleta uma região da qual ficamos com uma impressão geral, aparentemente uma visão superficial, limitada e pouco especifica. Sim, em parte, sim! Mas não, atravessar de bicicleta de Lisboa a Portimão, ora por caminhos vicinais, ora por estradas perdidas no tempo como a do Carrascalinho, ora ainda por experiências menos poéticas vividas na berma da N125, oferece um ponto de vista, uma janela panorâmica de velocidade bem mais lenta do qualquer outro meio de transporte. 

É uma janela aberta ao ar, aos odores, que nem sempre são a flores ou a maresia. Um campo de papoilas encanta o olhar, parar é fácil, fotografar faz parte da viagem, desce-se ao prado para atentar de perto um contra-luz com as pétalas de premeio. Perto desta natureza que seduz o mosquedo é bravo, zune e pica, o cheiro nauseabundo a bosta de vaca aperta e há que correr dali para fora, para a estrada - limpa, lisa e asseada. A poeira que no vale do trilho de Baiona se espraia ao vento e envolve o tratorista, compõe a beleza do portefólio do Canavilhas - o fotógrafo desta equipa.  São variados os modos com que se aproximam todas estas geografias.

Descobrimos o que outrora eram ermos de beleza inóspita a fazer parte de lugares eleitos a sete maravilhas de Portugal, como é o caso da praia de Odeceixe, cuja beleza preserva apesar da forte pressão publicitária e turística. Da praia ninguém adivinha que na encosta a montante a necessidade de rega automática de uma plantação extensa aplanou a superfície e breve se produzirá ali batata doce com fartura. A agricultura é um dos temas mais prenhe das nossas conversas de viagem, contrariamente ao que os textos anteriores podem fazer pensar. 

A agricultura aparece, nas nossas conversas, em variações infindáveis sobre temas familiares que ressurgem nas idas ao supermercado e no preço dos alimentos - baratos demais se pensarmos no seu custo produtivo. Como se safam, nestas condições, os pequenos produtores locais? Como se mantém longe da lupa tirânica da ASAE o produto artesanal? Como se consegue variedade de culturas, garantia de solo saudável, sem aumento de custos? Se estes preços baratos são sinónimo de monocultura intensiva então como se sai deste ciclo? 

Se calhar comemos muito, demais e, por isso mesmo, a obesidade grassa em idades cada vez mais jovens. Questionar este ciclo é tão importante como este outro, mais óbvio, que sempre enunciamos, o das estradas que atravessam todas estas geografias. Mas a quantidade de estradas é o garante do transporte de todos estes alimentos de um lugar para o outro do planeta, do país, da região. A mesma estrada que leva o produto para fora é também a que leva o valor acrescentado dos produtos agrícolas. Pouco ou nada fica na região.

A razão da desertificação reside precisamente nesta racionalidade produtiva, a batata doce que irá ser produzida em Odeceixe, praticamente não necessita de mão de obra, irá, de certo, ser consumida num outro país europeu e o lucro fica na empresa alemã que utiliza solo nacional para o lançar no mercado global. A globalização não tem a culpa, e o pecado mora ao lado, nas opções seguidas pelo país ao não ter em conta a necessidade de várias escalas produtivas. A sobrevivência económica dos pequenos produtores locais necessitava de regras que dessem primazia ao seu escoamento na geografia de proximidade. A viagem dos alimentos tinha de ser devidamente taxada para evitar tanta poluição e para gerar diversidade de produtos em cada região; cada qual com o seu sustento garantido, o mais independente possível.

Odeceixe

A produção global faz sentido se o valor ficar no lugar, na região. Não é o caso da agricultura. É o caso do turismo em geral e do cicloturismo em particular:  desenvolve várias escalas da economia. Este desequilíbrio também é sentido estrada fora, pedalando, foi grande o favor prestado às grandes vias que todos estes lugares esquecem, que os atravessam a grande velocidade e, no oposto, a ferrovia, ficou em muitos casos ao abandono, um exemplo gritante de desinvestimento, por todo o país se encontram linhas e edifícios bonitos largados ao desuso, mormente nas regiões que agora visitamos.

Falamos, sim, de sustentabilidade. E, olhando em redor, surgem os temas que emolduram a viagem: a produção destes terrenos, a maquinaria ligada com a rega e com a monda, os pesticidas que substituem o sachar e, por isso mesmo,  os cursos que agora são dados para dominar o ímpeto selvagem do uso desregulado, as estufas que proliferam cuidadas por nepaleses como aqueles que encontrámos - com sacos de plásticos no lugar dos alforges de marca, característicos dos cicloturistas como nós.

Nepaleses que trabalham nas estufas do litoral alentejano

Enfim, cruzamos as terras por onde andou a bicicleta do Ourives Ambulante, um fura-vidas cuja biografia atravessa nos montes alentejanos as várias formas de pobreza vivida no pós-guerra, época em que nasceu.  Todo o livro é uma narrativa a duas mãos - a dele, deambulante, e a da mulher, mais entranhada na aldeia e nos pesares em que se queda cada passo da sua emancipação. Ambos extraordinariamente exemplares daquilo a que academicamente dá pelo nome de mobilidade social: ele deixa a enxada para ser ourives e ela a custo deixa a foice e depois a serventia chegando a professora primária. É um texto que assalta a memória quando se olha um monte abandonado, uma escola do Plano dos Centenários fechada, quando na estrada nos cruzamos com uma pasteleira.

O livro mostra bem como os veículos são indicadores da sua própria mobilidade social e, no fim dos anos 50, a mota Sachs  substitui a bicicleta no transporte da sua mala verde de folha de Flandres. A história segue uma cronologia a que temos de estar atentos e, só assim, damos conta da entrada do carro, em meados dos anos 60, no qual mais tarde foge, com a dita mala para esconder na sua terra, mais a norte, deixando para trás montes inflamados por uma reforma agrária que ele muito bem entende e descreve. É num andar no Barreiro que acabam a viver, lugar para onde traz a bicicleta antiga que, já bem engraxada, passa a enfeitar a sala, mesmo ao lado da televisão.

Aljezur
Polvo à lagareiro

A economia da região revela-se também nos restaurantes, nos licores inebriantes com que nos brindam no fim de cada repasto. À volta, nas outras mesas, o linguajar é diverso, estrangeiros a apreciar a boa da gastronomia alentejana a um preço módico - atrevo-me a pensar que  os ordenados deles são melhores que os nossos. Eis que todos temos histórias de idas a restaurantes Europa fora e a lembrança é mais cara que o sabor.

É depois de cada almoço, sempre opíparo, que questionamos os nossos limites, a falta de uma sesta merecida e, sem pressa para que a digestão satisfaça, seguimos. De bicicleta testamos os nossos limites monte acima, monte abaixo, logo depois de Aljezur. Aprendemos a gerir o tempo da bateria, a usá-la o menos possível e, dado os 22 kg da bicicleta, queiramos ou não, vamos ficando em forma com este modo de viagem. É nas descidas que voltamos ao tempo da infância e vivemos sensações que não têm idade, que escapam à corrosão do tempo e, para dentro, sorrimos contentes com a felicidade que nos permitimos.

Quando por fim chegamos à tabuleta que diz Portimão sentimos um alívio jubiloso de satisfação, significa que demos conta de mais uma etapa, que marcamos no mapa os desvios a fazer à de 1927 para, no futuro, propiciar uma viagem ainda mais auspiciosa e segura. 

Fotos: Joel Canavilhas

NF.: desequilibrios da ferrovia 

Nova estação de Lagos
Nova estação de Lagos
Estação no tempo da sua inauguração. Por António Crisógono dos Santos (1862-1934)
A estação antiga, muito perto da atual, inoperacional
Lugar para levar bagagem e bicicletas
Plataforma do comboio em Portimão

A estação de Lagos resume a assimetria de investimento no interior da própria CP. Quem entra na estação de Lagos fica impressionado com a modernidade do edifício. Ao lado, abandonada, está a antiga estação. O comboio e a linha, muito antigos, lembram viagens realizadas nos idos anos 80. Face à modernidade da estação o comboio é um atraso de vida, na aparência e no horário. A janela do comboio é um vidro basso que deixa ver os muitos campos de golfe, o esplendor dos condomínios de luxo que não muito longe sucedem e se avistam. Como é que uma região como o Algarve, tão bonita e desenvolvida, se permite não ter uma linha moderna, com um bom comboio, entre Lagos e Vila Real de Santo António?

Valeu a pena a viagem

SERVIÇOS DE APOIO EXISTENTES EM PORTIMÃO

‣  Alojamentos e Restaurantes onde nos guardam a bicicleta - SIM

‣  Interligação com os transportes públicos (comboio) - SIM (entre Lagos a Faro)

‣  Locais de informações específicas sobre rotas - NÃO

‣  Aluguer de bicicletas - EUROPCAR

‣  Oficinas de bicicletas - SIM