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A viagem começou com a ida de comboio entre Lisboa e Évora. A estrada de Évora para Reguengos é um martírio, com muito trânsito com berma muitas vezes suprimida. De Reguengos a Reguengos de Monraraz faz-se bem e, a partir daí até ao Algarve é pacífico, sem muito trânsico e uma paisagem que é um esplendor. Viagem para ser realizada na Primavera. Percurso não indicado a famílias com crianças.

O regresso foi feito de comboio apanhado em Faro. Viagem de 4 dias, com dormidas em Mourão, São Domingos, Monte Gordo.

Évora – Reguengos

A jornada de bicicleta de Évora a Reguengos de Monsaraz durante a primavera transforma-se numa experiência encantadora, mas desafiadora. Neste período do ano, o trajeto é embelezado por campos floridos, oferecendo um espetáculo visual multi-colorido que enriquece a viagem.

A temperatura na primavera é consideravelmente mais amena do que no verão, proporcionando um clima ideal para ciclismo. No entanto, é prudente estar preparado para variações, com equipamento adequado para possíveis mudanças de tempo, incluindo vestuário adequado à chuva.

Apesar das condições climáticas mais favoráveis, o relevo da região com uma bicicleta eléctrica não é nenhum desafio no gasto da bateria. As inclinações são moderadas ao longo da rota. A qualidade das estradas é boa, mas nem sempre tem uma berma que possibilite alguma segurança segurança. Nas estradas paralelas à fronteira o transito é pacífico, naquelas que têm ligação à fronteira tornam-se um pesadelo, nomeadamente quando não existe uma berma. [Entretanto, em 2023, abriu uma Ecopista que liga Évora a Reguengos]

Chegadas a Reguengos, até Monsaraz segui-se um trajeto ladeado da bela paisagem alentejana que, nesta estação estação do ano, não apenas alivia os desafios físicos como “lava os olhos”. Monsaraz, tem uma herança histórica e uma vista para a barragem do Alqueva que torna a experiência memorável.

Reguengos de Monsaraz

A apenas alguns quilómetros do centro de Reguengos, Monsaraz ergue-se no topo de uma colina, rodeada pelas suas imponentes muralhas medievais. O passeio pelo castelo e pelas ruelas empedradas permite uma verdadeira viagem no tempo, com casas caiadas de branco, varandas floridas e um ambiente de serenidade que contrasta com a vastidão da paisagem alentejana.

A partir do castelo e dos miradouros de Monsaraz, a vista panorâmica sobre o Alqueva é simplesmente inesquecível. O maior lago artificial da Europa, com as suas águas serenas e ilhas dispersas, reflete a luz do entardecer de uma forma mágica, tornando este momento ideal para relaxar e contemplar a grandiosidade do território.

Mourão

A jornada de Monsaraz a Mourão é um verdadeiro deleite para os sentidos, combinando adrenalina, paisagem e um destino que parece saído de um postal. O vento no rosto e o declive acentuado tornam a experiência ainda mais intensa para os ciclistas, criando momentos de pura liberdade sobre duas rodas.
Ao chegar à travessia da ponte, o cenário muda novamente. A água do Alqueva reflete o céu imenso e, ao longe, Mourão começa a surgir com o seu castelo, imponente no topo da colina.

E então, a chegada a Mourão reserva um presente especial: o castelo rodeado por papoilas em flor. O contraste das ruínas com o vermelho vivo das flores silvestres cria uma imagem de rara beleza, uma cena que só a primavera alentejana pode oferecer. A paisagem, o silêncio tranquilo e a simplicidade do momento transformam esta travessia numa verdadeira experiência de felicidade.

A Praia Fluvial de Mourão, situada nas margens do Alqueva, oferece um espaço bem equipado para lazer e descanso. Com águas calmas e uma zona de areal e relvado, é ideal para banhos, natação e desportos aquáticos como stand-up paddle e caiaque. Conta com infra-estruturas como bar, zona de merendas e estacionamento, garantindo conforto para os visitantes.

A poucos minutos do centro de Mourão e do seu castelo, é um excelente ponto para relaxar após um passeio pela vila. A paisagem envolvente e os pôr do sol sobre o lago fazem da praia um local privilegiado para desfrutar da tranquilidade do Alentejo.

O trajeto de Mourão a Moura percorre uma das zonas mais impressionantes do Grande Lago do Alqueva, oferecendo vistas panorâmicas sobre a imensidão de água e a paisagem alentejana. A estrada serpenteia entre montes suaves, acompanhando as margens da albufeira e revelando diferentes perspetivas da barragem, cujas águas transformaram profundamente a região. Ao longo do caminho, pequenos montados de sobreiros e olivais centenários alternam com campos abertos, criando um contraste entre o azul espelhado da água e os tons dourados e verdes da terra.

Moura

A aproximação a Moura traz consigo a marca da cultura árabe na arquitetura e no urbanismo da cidade, onde o Castelo de Moura e as ruelas históricas convidam a uma pausa antes de continuar a explorar o território alentejano.

A viagem de Moura às Minas de São Domingos atravessa um território rico em história e contrastes paisagísticos, onde a serenidade do Alentejo dá lugar à paisagem singular da antiga exploração mineira. O aroma a rosmaninho espalha-se pelo ar, acompanhando o percurso e intensificando a sensação de imersão na paisagem alentejana. Ladeando a estrada, o florido arroxeado cria todo um cenário perfumado e harmonioso que contrasta com os tons dourados e verdes da vegetação envolvente.
O percurso passa pelo Cruzeiro de São Bento, um ponto de referência na região, que marca a paisagem com a sua imponência e simbolismo religioso.

A chegada da Páscoa coincide com um dos momentos mais deslumbrantes da paisagem alentejana. Na primavera, os campos enchem-se de cores vivas, com extensos mantos de malmequeres, papoilas e rosmaninho que transformam o horizonte que prende e surpreende o olhar. O verde renovado das pastagens e dos montados de sobreiros e azinheiras criam um cenário perfeito para esta época de renovação e celebração.

Minas de S. Domingos

As Minas de São Domingos, situadas no concelho de Mértola, são um dos mais marcantes exemplos do passado mineiro de Portugal. Outrora um dos maiores centros de extração de cobre e enxofre do país, esta antiga exploração, ativa entre 1858 e 1966, alterou profundamente a paisagem e a vida da comunidade local. Hoje, as ruínas industriais, as lagoas de tons avermelhados e as marcas deixadas pela extração criam um cenário único, onde a história e a natureza se encontram.

Apesar do ambiente árido que caracteriza parte da zona mineira, as Minas de São Domingos têm um tipo de beleza peculiar. O percurso que as atravessa é muito aprazível e funciona bem como um escape às estradas locais.

A viagem das Minas de São Domingos até ao Castillo de San Marcos, em Pomarão, percorre uma região marcada pela ligação histórica entre Portugal e Espanha, onde a atividade mineira e o rio Guadiana desempenharam papéis fundamentais no desenvolvimento local.

Ao longo do caminho, a paisagem alterna entre terrenos áridos e vestígios da exploração mineira, com o solo avermelhado a contrastar com a vegetação resistente do montado alentejano. Aproximando-se do Guadiana, o cenário torna-se mais verdejante, revelando a importância deste curso de água na ligação entre os dois países.

Guadiana – algures perto do Castillo de San Marcos

O Castillo de San Marcos, já em território espanhol, é um testemunho do passado defensivo da região, estrategicamente posicionado para controlar a navegação e o comércio ao longo do rio. A sua estrutura imponente convida à exploração, oferecendo vistas panorâmicas sobre o Guadiana e as terras alentejanas, tornando este percurso uma fascinante viagem pela história e pela geografia de uma das zonas mais simbólicas da fronteira luso-espanhola.

Nunca se deve seguir cegamente o percurso indicado por aplicações como o Komoot, especialmente em territórios desconhecidos. Antes de confiar numa rota, é essencial verificar no Google Maps ou em imagens de satélite se o caminho está bem delineado e transitável, evitando surpresas desagradáveis.

Neste caso específico, o que parecia uma excelente estrada de terra rapidamente se transformou num desafio inesperado. Após uma descida abrupta e a travessia de um riacho, o percurso levou-nos a uma propriedade privada, onde uma família vivia com um morador agressivo que nos impediu de continuar. Sem alternativa viável, tivemos de dar a volta por um trilho que incluía uma escadaria interminável em pedra, completamente impraticável para quem transporta bicicletas carregadas. O resultado? Duas horas de trabalhos forçados num percurso que deveria ter sido tranquilo, provando que trajetos de aventura BTT nem sempre são a melhor escolha quando se carrega equipamento pesado.

De Sanlúcar de Guadiana a Alcoutim

A travessia do Guadiana entre Sanlúcar de Guadiana (Espanha) e Alcoutim (Portugal) tem um encanto especial, mantendo viva a tradição das pequenas ligações fluviais que há séculos unem as duas margens. Não há horários rígidos nem grandes formalidades – basta acenar ao barqueiro, que, ao ver o sinal, cruza o rio para recolher os passageiros. Em poucos minutos, a embarcação desliza sobre as águas tranquilas, proporcionando uma perspetiva única das duas vilas fronteiriças.

Já em Alcoutim, depois das agruras vividas, nada melhor do que um almoço opíparo para recuperar energias. A vila oferece uma gastronomia rica e reconfortante, com destaque para ensopado de borrego, peixe do rio grelhado ou javali estufado, acompanhados por um bom vinho algarvio. A calma da vila, com as suas ruelas brancas e a vista para o Guadiana, convida a um merecido descanso antes de seguir viagem.

Basta acenar e vem um barco buscar-nos!

A viagem de Alcoutim a Vila Real de Santo António começa por uma estrada local que acompanha o Guadiana, proporcionando um percurso tranquilo e panorâmico. O traçado serpenteia ao lado do rio, revelando pequenas aldeias, montados de sobreiros e olivais dispersos, numa sucessão de paisagens que equilibram o charme rural e a proximidade da fronteira natural entre Portugal e Espanha.

Com pouco tráfego e uma atmosfera serena, esta estrada poderia quase ser uma ciclovia natural, perfeita para pedalar sem pressa, desfrutando da luz refletida nas águas do rio e do silêncio apenas interrompido pelo canto das aves ou pelo som distante de um barco a navegar. À medida que se avança para sul, a paisagem vai mudando, com a vegetação mais densa a dar lugar às primeiras influências do litoral algarvio. Com Vila Real de Santo António à vista, fazemos a derradeira curva em direção a Monte Gordo, onde passaremos a noite. Nos últimos quilómetros, a chuva caiu intensamente, tornando a chegada ainda mais desafiante, mas o conforto do hotel acabou por compensar o desgaste da jornada.

De Monte Gordo a Faro pela Ecovia do Litoral

Monte Gordo contrasta com a tranquilidade dos últimos dias – com ruas agitadas e o ritmo acelerado do turismo de praia. Na manhã seguinte, sem grande saudade do movimento e do barulho do lugar, partimos novamente, prontas para a continuação da viagem, deixando para trás o bulício da estância balnear.

O trajeto de Monte Gordo a Faro é feito pela Ecovia do Litoral, uma das formas mais agradáveis de explorar a costa algarvia de bicicleta, combinando paisagens marítimas, zonas naturais protegidas e vilas pitorescas. A Ecovia, que faz parte da EuroVelo 1, liga toda a faixa costeira do Algarve, oferecendo um percurso variado entre ciclovias, estradas secundárias e trilhos junto às dunas e sapais.

Saindo de Monte Gordo, o trajeto passa por Altura, Manta Rota e Cacela Velha, onde o cenário se abre para uma das vistas mais deslumbrantes da Ria Formosa.
Segue-se Tavira, onde a travessia do rio Gilão pode ser feita por ponte ou pelo ferry para quem quiser explorar a Ilha de Tavira. A ecovia continua pelo Parque Natural da Ria Formosa, atravessando pequenas aldeias piscatórias como Santa Luzia e Fuseta, antes de alcançar Olhão, conhecida pelo seu mercado de peixe e pelas ligações às ilhas-barreira.

Parque Natural da Ria Formosa

Ao atravessar o Parque Natural da Ria Formosa, a Ecovia do Litoral serpenteia entre sapais, canais de água salgada e bancos de areia, proporcionando um dos trechos mais bonitos e tranquilos de todo o percurso. O traçado acompanha a geografia fluida da ria, adaptando-se ao terreno e criando uma viagem onde cada curva revela novas paisagens, desde pequenas enseadas até extensos campos de salinas brilhantes sob o sol.

Pedalar neste percurso é uma experiência extraordinária na natureza, com a presença constante de aves como flamingos, garças e alfaiates, que encontram na ria um habitat privilegiado. O percurso alterna entre passadiços de madeira, trilhos de terra batida e estradas secundárias pouco movimentadas, garantindo uma ligação harmoniosa entre a bicicleta e a paisagem. Aqui, o tempo parece desacelerar, convidando a momentos de contemplação e pausas estratégicas para apreciar a beleza única da Ria Formosa.

Em Faro, a tradição da doçaria algarvia ganha formas alusivas à Páscoa, os doces típicos feitos com amêndoa são ingredientes que marcam a identidade gastronómica da região. Os motivos pascais destacam-se na montra pelo seu colorido e trabalho artesanal, sendo verdadeiras pequenas obras de arte comestíveis. Para quem visita Faro nesta época, provar estes doces é celebrar a Páscoa ao estilo algarvio.